Na parede. Olhei e achei lindo.
Sobre qualquer coisa. Arte, Cultura, Conhecimento, Comportamento. Bagagens e bobagens. Escrevo aqui o que não interessa escrever nos outros blogs, mas quero que todo mundo saiba como vejo.
domingo, 29 de novembro de 2009
sábado, 28 de novembro de 2009
Tomates tunisianos fritos
Na loja franqueada de uma famosa cafeteria ouvi o seguinte diálogo entre duas distintíssimas senhoras, num tom pra lá de blasé:
- O seu prato chegou primeiro? E o meu café, nada. O serviço aqui é péssimo.
- Sim. Horrível.
- E este tomate aí? Não era pra ser frito?
- Pois é. Era. Mas está totalmente cru, com o queijo parmesão derretido dentro.
- Que horror. Isso é coisa daqui. Porque já fui a várias lojas em Curitiba e até em Camboriú. Nunca vi este tipo de atendimento.
- E este tomate, você já viu assim em algum lugar?
- Não.
- Nem eu. Não deve existir em nenhum lugar do mundo. Nem nos confins da Tunísia.
- É verdade.
Pode parecer non sense. É. Mas é coisa pior também. É xenofóbico.
Estou exagerando? Talvez. Mas presenciar este diálogo entre duas turistas curitibanas em uma cafeteria da orla marítima de Salvador me deixou muito desconfortável.
A ponto de rever o cardápio, que conheço há muito tempo e comparar a foto do prato pedido pela senhora, vítima da suposta incompetência do pessoal da cozinha.
Fiz mais: chamei o garçom e perguntei qual era o ponto do tomate. Tomate este que eu já havia comido várias vezes. É gratinado, não é frito. Por isto vem levemente assado, só fica no forno o tempo de derreter o queijo mussarela - não parmesão.
E dei uma boa espichada de olho. Juro, não vi nada diferente do que sempre vi servido em outras unidades da rede, inclusive as paulistanas.
Moro em Salvador há 32 anos. Critico o mau serviço, aqui ou em qualquer lugar do mundo. Temos problemas? Sim. Não são poucas as vezes em que chamo gerentes de estabelecimentos, devolvo pratos e mercadorias, reclamo do atendimento, da conta, da demora. Me manifesto, cobro, exijo.
Hospitalidade e descontração não são desculpas para uma prestação de serviço meia-boca, que não é rara por aqui.
Mas a cena revelou, sim, uma carga de preconceito que me incomodou profundamente. Duplo preconceito. Havia um batalhão de gente se desdobrando pra o atendimento rápido na cafeteria lotada. Eu não esperei 5 minutos pelo meu pedido. O bendito tomate da turista estava no ponto.
E a culinária da Tunísia, seja na capital com ares ocidentais, Tunis, ou no mais longínquo distrito no meio do deserto é referência internacional.
Podem perguntar porque eu prestei atenção na conversa dos outros. Primeiro porque observar o comportamento humano faz parte da minha vida. Sou jornalista e, portanto, observadora por ofício. Segundo - e o principal motivo - foi porque entrei sozinha, procurei um lugar no canto do salão e encontrei uma mesa vaga ao lado das digníssimas senhoras. Ao passar, cumprimentei-as, no que não fui correspondida.
Aliás, fui solenemente ignorada. Isto bastou pra que eu as considerasse esnobes e mal-educadas, além de suscitar minha curiosidade a ponto de encará-las. Por isso ouvi a conversa que descrevi. No tonzinho de senhorinhas que tomam seu chá das cinco, o que me irritou ainda mais.
Achei de um cinismo absoluto. "Coisa daqui". A bolsa de tecido comprada no Mercado Modelo com a ilustração do Elevador Lacerda que uma delas portava também é "coisa daqui". E o tomate cru não foi devolvido. Foi engolido no mesmo ritmo do diálogo.
Tive vergonha. Quase pedi desculpas ao garçom quando ele disse que cenas como estas são comuns. Que as manifestações de preconceito, principalmente racial são o seu dia-a-dia, por mais que se esforce pra mostrar o melhor.
Disse isso com sinceridade e mágoa. Me agradeceu pela preocupação e me pediu pra voltar sempre. Voltarei. Quem sabe um dia vá a Tunísia, bem lá nos confins. Quem sabe só em Curitiba e em Camboriú os tomates gratinados são fritos. Eu detesto tomates fritos.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Na contramão
Vi ontem uma matéria na TV sobre o uso da bicicleta como meio de transporte no Japão. No sol, na chuva, no frio, com ou sem filhos na carona, as mulheres de minissaia e salto alto, os homens de terno a caminho do trabalho.
Os japoneses vão a todos os lugares de bicicleta, mesmo não existindo ciclovias. As ruas são muito estreitas. Mas os bicicletários nas estações de metrô e pontos estratégicos de Tóquio facilitam.
A tendência da substituição do automóvel pela bike vem de alguns anos como uma das alternativas para a preservação do meio ambiente e, claro, pra dar uma força à saúde da população urbana.
O Brasil está no atraso. As cidades brasileiras, com heróicas exceções, não têm infraestrutura alguma para fomentar o uso das bicicletas pelos seus moradores. E estes, enfiados em seus carros por horas nos engarrafamentos reclamam, mas não movem uma palha. Ou melhor, uma roda da magrela.
Em Soterópolis - Salvador, Bahia, para quem ainda não sabe - a coisa é ainda mais crítica.
Combine-se um transporte coletivo de péssima qualidade, um metrô em construção empacado há 10 anos, uma topografia que não ajuda, um crescimento em cinco vezes da frota de automóveis nos últimos 20 anos e nenhum investimento em ciclovias, pavimentação e manutenção das ruas e temos um cenário sofrível.
Orla marítima de Salvador. Foto: Welton Araújo, Agência A Tarde
Márcio Fortes, o ministro das Cidades promete a liberação de recursos para a construção de ciclovias e bicicletários em todo o país, mas diz que cada cidade "tem uma situação de necessidade". Pronto: era essa a deixa que a administração soteropolitana queria. Não vai pedir essa verba nunca.
A não ser que alguma estrela de axé resolva dar um passeio de bicicleta pela cidade, caia num buraco ou seja atropelada e deixe de puxar o trio elétrico no Carnaval. Aí é outra coisa. As providências para melhoria das condições de vida da população andam de braços dados com a indústria do entretenimento e as espetacularizações pseudo-culturais.
Ok, ninguém quer bicicleta, por razões diversas? Cabe rodízio com carona solidária. Afinal, o baiano tem fama de agregador. E o é, verdadeiramente.
Então, que tal os poderes públicos adotarem por aqui uma medida semelhante à anunciada pela Holanda, que vai cobrar uma taxa por quilômetro percorrido pelos automóveis? Tudo controlado por GPS.
A proposta pretende reduzir em 10% as emissões de dióxido de carbono até 2012. E haverá contrapartida: o imposto sobre a compra dos veículos, que custa aos holandeses 25% do valor do bem, será abolido.
E, ainda: a taxa cobrada terá variação de acordo com o índice de emissão de carbono dos automóveis. Os donos dos carros menos poluentes terão mais descontos.
Iniciativa fantástica, considerando a eficiência do sistema de trânsito daquele país, que tem a bicicleta como um meio de transporte como qualquer outro, com regras de circulação e segurança. Em Amsterdam, 12 bicicletas ocupam o lugar de um automóvel, o que reduz sensivelmente os entraves do tráfego e os índices de poluição.
By the way, na Ilha da Fantasia trieletrizante mais de 2 milhões de veículos estão em circulação. Na capital são quase 700 mil: um carro para cada quatro habitantes. Respire um ar desses. Depois vá pular na pipoca do Chiclete com Banana pra aliviar os pulmões.
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domingo, 22 de novembro de 2009
Besouro: o filme e o discurso
O vôo do Besouro (Aílton Carmo) sobre a Chapada.
A diferença entre o diretor-cineasta e o diretor-publicitário é a verborragia.
Se João Daniel Tikhomiroff falasse menos, talvez Besouro, o filme, pudesse ser melhor compreendido.
Fui ao cinema com a seguinte referência: é de sentir vergonha. Não é não.
Mas não é um filme de ação e muito menos pode ser definido como uma superprodução que conta a saga do primeiro herói brasileiro nas telonas, como apregoou o diretor em seu discurso de pré-estréia. Ou de teaser, usando a linguagem do marketing.
Fui sem expectativas e, por isso, gostei. O roteiro é bom? Não. É recortado demais, beirando o simplório. Isso faz diferença? Não. O homem negro lutador do início do século passado, escondido atrás de sua culpa é humano e supera os clichês periféricos.
O filme dá seu recado estético no seu ritmo, mistura verdade e ficção, conta uma história real em meio ao imaginário das entidades do Candomblé. A personificação de Exu (o excelente Sérgio Laurentino) é estupenda. E o equatoriano Enrique Chediak dá uma aula de fotografia.
O Exu de Sérgio Laurentino: o bem e o mal.
O filme é o irmão pobre e tupiniquim de O Tigre e o Dragão? Não. A cultura da Capoeira é maior que os efeitos dos vôos e lutas que os chineses incorporaram.
Atores desconhecidos e não-atores comprometem? Não de novo. Ao contrário. Ampliam o olhar sobre o filme que reverencia uma arte genuína, baiana e brasileira. E o trabalho de Fátima Toledo com o elenco foi correto.
Aílton Carmo, o Besouro, é excepcional capoeirista e convence. Fico pensando no orgulho de seus alunos, crianças carentes da Chapada Diamantina, região do interior da Bahia onde nasceu e aprendeu a jogar Capoeira.
Aílton Carmo, o Besouro, é excepcional capoeirista e convence. Fico pensando no orgulho de seus alunos, crianças carentes da Chapada Diamantina, região do interior da Bahia onde nasceu e aprendeu a jogar Capoeira.
Besouro não é mesmo um filme de ação. É um filme de arte. E Tikhomiroff errou em não "vendê-lo" desta forma. É um filme para se esperar uma trilha não-linear, que Rica Amabis faz muito bem. Ângulos de câmera em sobrevôo, personagens inverossímeis e detalhes de interpretação que surpreendem.
Como os olhos marejados de ódio e impotência do cruel chefe dos jagunços, Noca de Antonia (Irhandir Santos) quando descobre que Besouro foi o autor do incêndio no canavial do Coronel Venâncio (Flávio Rocha). Ambos, ótimos atores.
Como os olhos marejados de ódio e impotência do cruel chefe dos jagunços, Noca de Antonia (Irhandir Santos) quando descobre que Besouro foi o autor do incêndio no canavial do Coronel Venâncio (Flávio Rocha). Ambos, ótimos atores.
Ok. Custou R$ 10 milhões, tem dezenas de patrocinadores e, por isso, a "obrigação" de fazer um filme maior conta. Mas, pera aí. Qual é mesmo o demérito?
Nós babamos com os filmes europeus e os filmes cult hollywodianos, achamos tudo lindo e fingimos que entendemos roteiros que não têm pé nem cabeça - os chamados filmes de arte-do-cão, como diria um amigo meu - sem nos perguntarmos quantos euros ou dólares há naquela produção sem começo, meio e, invariavelmente, sem fim.
Não considero que Besouro tenha sido um ensaio de um novo gênero do cinema nacional - que, sim, só dá valor ao mundo cão da periferia urbana, às comédias non sense ou água-com-açúcar com elencos globais ou às produções protagonizadas pelo chatíssimo Selton Mello.
Há beleza em Besouro, sim. Nas locações da Chapada Diamantina e do Recôncavo baiano. Na história documentada de resistência da raça negra e na plasticidade e identidade cultural na Capoeira.
E cinema é isto também. O resto foi garganta demais.
E cinema é isto também. O resto foi garganta demais.
Fotos: Christian Cravo.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Porque eu sou negona
Negritude. Consciência. Quem não se rende. Quem não se vende.
Nobre Guerreiro.
A maior voz da Bahia: Lazzo Matumbi.
Nobre Guerreiro.
A maior voz da Bahia: Lazzo Matumbi.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Bossa e samba na Igreja
Quando cheguei a Salvador no final dos anos 70's vivia "medindo" a cidade, como se diz por aqui. Andava a pé pelo Centro Histórico num tempo onde as palavras medo e insegurança não existiam no meu vocabulário. Um dos caminhos para pegar o ônibus me levava ao ponto final da Barroquinha, onde se inicia a Baixa dos Sapateiros, mundializada por Ary Barroso.
Descendo as escadarias ao lado do antigo cinema Guarani, depois Glauber Rocha e hoje Espaço Cultural Unibanco ficava a Igreja Nossa Senhora da Barroquinha. Uma construção do século XVII que compunha um conjunto arquitetônico que tive a sorte de conhecer, mesmo comprometido pela degradação dos equipamentos desde meados do século passado.
A Igreja tem um valor histórico inestimável. É uma das marcas mais significativas do sincretismo religioso da Bahia: era frequentada por mulheres nagô-iorubás da nação ketu que, mais tarde, formariam a Confraria de Nossa Senhora da Boa Morte. À sua volta um batuque deu origem aos primeiros terreiros de Candomblé da cidade.
Em 1984 a Igreja virou ruínas num incêndio e assim permaneceu por muitos anos, com intervenções pontuais para sustentar o que restou. Em agosto deste ano, depois de um projeto de recuperação que começou em 2003 a Igreja foi devolvida aos soteropolitanos como espaço cultural, contribuindo para a vocação daquela área da cidade.
Ontem fui assistir a um show de bossa nova do músico baiano Paulo Costa, que mora em Paris. Pela primeira vez entrei na Igreja depois da intervenção para restauração e recuperação das ruínas. Confesso, fiquei emocionadíssima.
O lugar é lindo. A história de séculos se mistura, na nave central, aos equipamentos de som e luz e aos dutos de ar. Uma acústica fabulosa e os donos da casa - os morcegos - de vez em quando dão vôos rasantes no fundo do palco. Nem isso chegou a interferir no encantamento da platéia. É um lugar perfeito para se beber Cultura.
Neste verão o lugar vai virar espaço de samba, com o Projeto Samba da Igreja todas as segundas-feiras, de novembro a fevereiro de 2010. O batuque do século XVII sai então do entorno, da rua e passa à área interna da Igreja da Barroquinha na forma de outra manifestação autêntica da região do Recôncavo, o samba de roda.
E eu, como boa baianoca estarei lá muitas vezes. É isso que eu gosto do lugar que escolhi pra viver: a tradição revisitada, transformada, mas nunca esquecida.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Uma comédia, um cartaz, uma versão racista
Ações racistas na mídia são recorrentes, apesar de estarmos no século XXI e das sucessivas reparações históricas por todo o mundo.
A mais nova vem da divulgação da comédia Couples Retreat, da Universal Pictures, que fez duas versões do cartaz do filme:
Na primeira, veiculado nos EUA, um casal negro - os atores Faizon Love e Kali Hawk - aparece na foto, embora lá no fundo, atrás dos demais atores - todos brancos.
A segunda versão, feita para circular nos outros países exclui o casal negro. Sem cerimônia e sem vergonha, a Universal justifica: "a idéia era apenas simplificar a imagem para a Inglaterra e demais países fora dos EUA". Vergonhoso.
Mês que vem o filme estréia no Brasil. Vamos ver como vai chegar por aqui.
Confiram o artigo de Miles Goslett no Mail on Sunday.
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