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domingo, 18 de abril de 2010

Quando só os olhos falam

Benjamín e Irene: amor de uma vida, sem um único beijo. Só os olhos falavam.

Acabei de assistir o estupendo O Segredo dos seus Olhos (El Secreto de sus ojos, 2009), filme argentino ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro. Não vou fazer aqui uma crítica ao filme. Pra isso tem o link.
Digo apenas que foi mais que merecedor do prêmio e que o cinema brasileiro continua sendo uma vergonha diante do talento dos vizinhos.
Eu quero falar mesmo é da importância do olhar. A história trata disso, dos olhares que envolvem todo o drama do amor que não se verbaliza e do suspense que não se revela.
Os olhos traem toda e qualquer atitude humana e tem canal direto com a alma. Desconheço alguém absolutamente perfeito na arte de enganar com os olhos. Todos os gestos, todos os trejeitos, todo o verbo podem contar mentiras a si próprio e aos outros. Mas os olhos, nunca.
Eles derrubam a voz, desdenham a consciência, subvertem os atos. Por isso é tão complicado olhar "dentro" dos olhos de alguém. Temos medo de sermos descobertos em segredos que nem conhecíamos em nós mesmos. Ou de descobrirmos segredos alheios. 
Saber olhar é um exercício do viver. Porque há sentido no modo como se fixa ou se move os olhos e uma expectativa da forma como se é interpretado. Se há correspondência, negação, crítica, aceitação, cumplicidade. No fundo, tudo isto importa.
Tenho três blogs e, em cada um deles, tenho olhares distintos. Estes olhos da foto aí em cima são os meus. Olhos sobre tudo, abertos, mas de lado. Olhar de observação, antes do discurso. Em outro blog, mais pessoal ainda, o olhar é para baixo, em direção ao chão.  Porque lá falo de coisas que ferem, que nem sempre quero ver ou quero que me vejam quando as sinto. E no terceiro blog a foto do perfil mostra um olhar descolado, também pro lado, menos íntimo, alegre. Não pensei exatamente com esta lógica quando defini as fotos. Mas certamente eu quis assim. 
O filme disse muito mais do que isto, certamente. Mas isto foi o que vi, pra onde olhei. E cinema é assim mesmo: fica o que mais nos impressiona.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Soweto, a Praça e o Poeta

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...

O trecho de um dos versos de O Navio Negreiro, de Castro Alves me comove. Na Praça mais famosa de Salvador, que leva seu nome chego no fim do domingo pra sessão de cinema. Com atraso porque é difícil estacionar em meio ao crack, desgraça urbana contemporânea.
Entro e já me deparo com Nelson Mandela, ou melhor, Mr. Morgan Freeman encarnando o então presidente sulafricano em expressões, gestos e sotaque africâner, ampliando sua equipe de segurança particular com homens brancos, começando a varrer o apartheid no próprio tapete e enfrentando seus pares por isto. 
O filme é Invictus, de Clint Eastwood e só isso já me faria sair de casa no final de domingo. Clint é, de longe, o maior cineasta da década. Mr. Freeman e o roteiro, inspirado em uma história real, só aumentam minha motivação.
Ao meu lado, um amigo que trabalhou em África e que ouviu aquela história contada bem de perto. Conheceu bem a Cidade do Cabo e Joanesburgo, andou por ruas que víamos a todo instante na tela, esteve em Robben Island Prision, na cela onde Mandela foi trancafiado por 27 anos, da largura dos braços abertos.
Foto: divulgação. veja.abril.com.br

Deste modo, abrindo os braços o capitão do time nacional de rugby da África do Sul, Francois Piennar (Matt Damon) mediu o lugar e meu amigo o fez da mesma forma quando lá esteve. É inevitável quando se depara com o cubículo onde mal cabia o colchão fino.
Ali Mandela suportou o frio que vinha através das grades sem proteção. A meresia lhe causou um problema na retina, seus olhos ficaram extremamente sensíveis à luz. 
E, ainda assim sobreviveu para levar à frente seus ideais e perdoar seus algozes. Por isso o que mais se ouve no filme é: "se o presidente aguenta, nós também podemos aguentar".
Cochichando, eu ia complementando as informações históricas de Invictus e confirmando a versão fidedígna da direção sensível e segura de Clint apoiada pelo talento do elenco.
A luta anti-apartheid obstinada de Nelson Mandela e seu desempenho na presidência da África do Sul não são mitificados quanto pareçam merecer. Houve controvérsias e estas são mostradas em Invictus naturalmente. Mas o recorte da história exposto no filme é suficientemente cru e, por isso, memorável.

Nelson Mandela e Francois Pienaar. Foto: Google Imagens

Todo ele preserva o contexto humanístico: o drama racial, a segregação, o abismo cultural e a miséria que advém do massacre aos negros, mesmo em maioria no país. Mandela é um líder humano, lúcido, sagaz e generoso demais para fomentar vingança. Prevalecem os seus princípios de igualdade e união em favor do país que ele vislumbra livre do apartheid.
Obviamente, tudo na linguagem cinematográfica ao melhor estilo Eastwood: vigor cenográfico e sutileza em contraponto, a história bem contada, clara e sem arestas ou dubiedade, elenco impecável e trilha sonora paralisante.
Damon e Mr. Freeman concorrem ao Oscar 2010 que, absurdamente, deixa Clint e Invictus fora das disputas principais, de direção e filme.
As ruas e favelas de Soweto, paupérrimas e vazias, com seus moradores agrupados e atentos a um evento que simboliza o esforço de Mandela e de Pienaar me remeteram ao espaço externo da sala do cinema.
Lá fora homens, mulheres, jovens e velhos viciados, os "crackeiros", em grande maioria afro-descendentes da cidade com maior população negra fora de África perambulavam em volta da estátua de Castro Alves, se jogando e andando a esmo na rua.  Desafiando motoristas para arrancar um troco dos transeuntes apreensivos diante de um atropelo iminente. Triste ironia.
Daqui a uma semana será Carnaval em Salvador e os "crackeiros" serão varridos para baixo do asfalto ou se congraçarão no vai-e-vem da dança na Praça Castro Alves, que estará repleta de turistas e soteropolitanos saltitantes.
E todos em uníssono endossarão o coro oficial da "festa mais democrática do planeta", onde até os "branquinhos são neguinhos". Tudo aos pés do poeta sensível à penúria escrava dos navios.
Não é preciso dizer que a desgraça do crack não é exclusiva de pobres e pretos. Já faz a cabeça e engorda as estatísticas de óbitos de jovens da classe média há algum tempo. Mas esta é outra história.
Por ora, o que se vê na praça é a praga do alento dos miseráveis. Dos que não escolhem, são escolhidos.
Mandela mostrou neste pequeno trecho da sua trajetória e do seu país que não se muda um cenário adverso sem liderança. E usou o esporte para levantar e unir em torno de um foco - um time nacional de rugby - uma multidão segregada, apartada. E fez valer a sua luta histórica. 
No caso de Salvador, na Soweto que se esconde atrás do Trio Elétrico, a política do Império Romano para com a multidão é levada ao pé da letra: panis et circenses. Quando o circo é o próprio pão. E, no outro lado desta arena, sequer há líderes a serem reverenciados. São todos atores do mesmo circo.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Som e poesia, mas sem fantasia


Imagem: autoria não identificada Fonte: Google Imagens

Não sei exatamente há quanto tempo não abria o Germina Literatura. Por isso só hoje vi que há uma janela com som. Uma foto de um rádio antigo, com uma música com cara de poema. Abri aleatoriamente o site e me dei conta do quanto a palavra - e a melodia serenada - alimentam a alma.
Tem um tempo em que a gente tem que seguir, ou descobrir, coisas que nos digam algo, verdadeiramente.
Falo isto porque decidi, depois de um encontro que deu errado, não assistir Avatar. Não gosto de filmes de ficção, com efeitos computadorizados em excesso.
Parece paradoxal, já que os temas cibernéticos me atraem. Mas a simplicidade das palavras que posso ouvir na esquina me tocam muito mais e me fazem ligar a chave do carro e ir ao cinema.
Essa coisa do Globo de Ouro, só opiniões favoráveis, tudo me balançou. Mas hoje ouvi na real o que o filme tem de bom: roteiro e efeitos especiais. Ótimo. Por isso não vou. É pouco. Falta o poema realista. Casual, como este com que me deparei hoje no Germina. Ou como o texto do blog de Paradise Duluoz. Poético, sensível e inspirado numa história real.
Estou em um tempo de olhar mais perto. Não quero a lua de James Cameron. Quero colocar minha sobrinha no colo no dia do seu aniversário. Acalentá-la e confortá-la por ter presenciado a morte de uma jovem em um ponto de ônibus na esquina de casa, a quem tentou salvar desesperadamente depois que uma motorista de ré e sem freio imprensou a moça na parede.
Falo grego? Acho que não. Falo sem fantasia.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Uma história de encontro




Watch CBS Videos Online
Nathaniel Ayers e Steve Lopez

Para mim o cinema é a extensão perfeita da literatura. Não falo de versões e adaptações. Falo da possibilidade de enxergar as minúcias das emoções do viver. A ressaca entre o Natal e o Ano Novo é um bom momento para ir ao cinema.
Mesmo involuntariamente é a hora em que a sensibilidade aguça, estamos mais suscetíveis às percepções e contemplações e nos permitimos a tão propagada reflexão. Palavrinha gasta, do rol dos clichês de fim de ano. Mas ainda necessária para justificar a vontade de mudar. E, se possível, provocar mudanças.
Fui ver O Solista (The Soloist, 2009), de Joe Wright, com estupendas interpretações de Jamie Foxx e Robert Downey Jr.
O filme conta a história real de Nathaniel Ayers, músico virtuoso que abandonou família e a arte para morar nas ruas. Era esquizofrênico, ouvia vozes, tinha alucinações e, por consequência, surtos.
No seu caminho cruza Steve Lopez, colunista do Los Angeles Times, um homem maduro e com uma vida solitária e sem sentido.
Há um encontro. Desses que, imagino, só acontecem uma vez em nossas vidas. Ou talvez aconteça sempre e nem nos damos conta. Lopez e Ayers constroem, a partir deste encontro, uma história de amizade que muda radicalmente a vida dos dois.
Ayers, sensível, percebe claramente o que Lopez passa a significar para ele enquanto o outro resiste, hesita, recua, antes de entender que é impossível passar incólume à presença de Ayers a partir daquele ponto. O que aconteceu entre Nathaniel Ayers e Steve Lopez pode não ter sido mera casualidade. Quem sabe já estava escrito.
Mas o que importa mesmo é a capacidade de olhar. Perceber o entorno do mundo que criamos para nos defender ou para nos afundar na invidualidade que o cotidiano nos impõe. Olhar a rua, ouvir os sons, sentir os cheiros e os gostos. Do que nunca vimos ou provamos. Do que difere daquilo que julgamos entender.
Lopez não é inocente. Há uma apropriação sim, que o fez um jornalista reconhecido e premiado por contar a história de Ayers. Mas há um dilema emocional ao qual ele se rende. E isso é o melhor da história.
Compreender que podemos transformar a nossa vida e a do outro é o melhor de um encontro.

domingo, 22 de novembro de 2009

Besouro: o filme e o discurso


           O vôo do Besouro (Aílton Carmo) sobre a Chapada.

A diferença entre o diretor-cineasta e o diretor-publicitário é a verborragia.
Se João Daniel Tikhomiroff  falasse menos, talvez Besouro, o filme, pudesse ser melhor compreendido.
Fui ao cinema com a seguinte referência: é de sentir vergonha. Não é não.
Mas não é um filme de ação e muito menos pode ser definido como uma superprodução que conta a saga do primeiro herói brasileiro nas telonas, como apregoou o diretor em seu discurso de pré-estréia. Ou de teaser, usando a linguagem do marketing.
Fui sem expectativas e, por isso, gostei. O roteiro é bom? Não. É recortado demais, beirando o simplório. Isso faz diferença? Não. O homem negro lutador do início do século passado, escondido atrás de sua culpa é humano e supera os clichês periféricos.
O filme dá seu recado estético no seu ritmo, mistura verdade e ficção, conta uma história real em meio ao imaginário das entidades do Candomblé. A personificação de Exu (o excelente Sérgio Laurentino) é estupenda. E o equatoriano Enrique Chediak dá uma aula de fotografia.


O Exu de Sérgio Laurentino: o bem e o mal.

O filme é o irmão pobre e tupiniquim de O Tigre e o Dragão? Não. A cultura da Capoeira é maior que os efeitos dos vôos e lutas que os chineses incorporaram.
Atores desconhecidos e não-atores comprometem? Não de novo. Ao contrário. Ampliam o olhar sobre o filme que reverencia uma arte genuína, baiana e brasileira. E o trabalho de Fátima Toledo com o elenco foi correto.
Aílton Carmo, o Besouro, é excepcional capoeirista e convence. Fico pensando no orgulho de seus alunos, crianças carentes da Chapada Diamantina, região do interior da Bahia onde nasceu e aprendeu a jogar Capoeira.
Besouro não é mesmo um filme de ação. É um filme de arte. E Tikhomiroff  errou em não "vendê-lo" desta forma. É um filme para se esperar uma trilha não-linear, que Rica Amabis faz muito bem. Ângulos de câmera em sobrevôo, personagens inverossímeis e detalhes de interpretação que surpreendem.
Como os olhos marejados de ódio e impotência do cruel chefe dos jagunços, Noca de Antonia (Irhandir Santos) quando descobre que Besouro foi o autor do incêndio no canavial do Coronel Venâncio (Flávio Rocha). Ambos, ótimos atores.
Ok. Custou R$ 10 milhões, tem dezenas de patrocinadores e, por isso, a "obrigação" de fazer um filme maior conta. Mas, pera aí. Qual é mesmo o demérito?
Nós babamos com os filmes europeus e os filmes cult hollywodianos, achamos tudo lindo e fingimos que entendemos roteiros que não têm pé nem cabeça - os chamados filmes de arte-do-cão, como diria um amigo meu - sem nos perguntarmos quantos euros ou dólares há naquela produção sem começo, meio e, invariavelmente, sem fim.
Não considero que Besouro tenha sido um ensaio de um novo gênero do cinema nacional - que, sim, só dá valor ao mundo cão da periferia urbana, às comédias non sense ou água-com-açúcar com elencos globais ou às produções protagonizadas pelo chatíssimo Selton Mello.
Há beleza em Besouro, sim. Nas locações da Chapada Diamantina e do Recôncavo baiano. Na história documentada de resistência da raça negra e na plasticidade e identidade cultural na Capoeira.
E cinema é isto também. O resto foi garganta demais.

Fotos: Christian Cravo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Uma comédia, um cartaz, uma versão racista

Ações racistas na mídia são recorrentes, apesar de estarmos no século XXI e das sucessivas reparações históricas por todo o mundo.
A mais nova vem da divulgação da comédia Couples Retreat, da Universal Pictures, que fez duas versões do cartaz do filme:



Na primeira, veiculado nos EUA, um casal negro - os atores Faizon Love e Kali Hawk - aparece na foto, embora lá no fundo, atrás dos demais atores - todos brancos.
A segunda versão, feita para circular nos outros países exclui o casal negro. Sem cerimônia e sem vergonha, a Universal justifica: "a idéia era apenas simplificar a imagem para a Inglaterra e demais países fora dos EUA". Vergonhoso.
Mês que vem o filme estréia no Brasil. Vamos ver como vai chegar por aqui.

domingo, 8 de novembro de 2009

Che ainda foi maior


O homem, também guerrilheiro

Cinema na noite de sábado. Che 2, de Steven Soderbergh. Direção arrastada para quem não conhece a história. Roteiro fiel, Benício del Toro é a encarnação de Che Guevara. É uma coisa transcendental aquela interpretação. O mito toma conta da alma do ator. Toma conta de tudo.
Comentei com uma amiga que del Toro vai levar uns 10 anos pra se livrar de Che. E tenho dúvida se ele vai conseguir. Mas o filme, por si só, não emociona.
Talvez porque a minha geração tenha o imaginário de Che Guevara impregnado em seu sonho pueril. Indubitavelmente, em alguns princípios revolucionários que ainda carrega. Mas gostei do tom documental. Por duas horas o lugar do espectador é dentro da mata boliviana.
O olhar é de dentro pra fora e, por isso o ritmo, lento, no tempo de cada acontecimento. Sem a corrida frenética dos filmes de guerra ou de ação. Tudo no passo tático de uma operação de guerrilha movida pela ideologia de um homem quase só. É uma referência histórica importantíssima. Este deve ser o olhar sobre o filme.
Embora goste muito de Soderbergh - Traffic (2000) e Sexo, Mentiras e Videotape (1989) estão na lista dos 20 melhores filmes da minha vida -, penso que um diretor sulamericano, sobretudo os argentinos fariam um filme bem melhor, cinematograficamente falando.
Nossos olhos e nossos ouvidos já estão treinados para imagens cruas, perspectivas diretas da câmera, lentes sem filtro e cortes menos secos e mais emocionais, embalados por uma sonoplastia tensa e uma trilha sonora que vai num movimento crescente. Somos latinos. Só o canto-lamento de Mercedes Sosa, Balderrama, na subida do corpo de Che e dos caracteres não basta.
A direção de Soderbergh abre mão dessa visceralidade que a história de um mito revolucionário em seus últimos momentos merecia. Talvez este tenha sido o meu incômodo, que não desdenha em nada o filme, conceitualmente.
Eu, que colecionei livros, bottons e camisetas de Che na juventude e chorei em Diários de Motocicleta (Walter Salles, 2004) saí do cinema como entrei, a não ser pela sensação de que houvera visto Che em del Toro. Estupendo.